3 de dezembro de 2020

A reprise do horror

Bruno Abbud “Pai, teve um terremoto no Japão”, ouviu Takeshi Sogabe, 76 anos, assim que atendeu ao telefone às cinco da manhã de 11 de março em seu apartamento na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. A filha, de saída para o trabalho no mesmo bairro, se referia ao terremoto seguido por um tsunami […]

Kobe, 17 de janeiro de 1995

Bruno Abbud

“Pai, teve um terremoto no Japão”, ouviu Takeshi Sogabe, 76 anos, assim que atendeu ao telefone às cinco da manhã de 11 de março em seu apartamento na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. A filha, de saída para o trabalho no mesmo bairro, se referia ao terremoto seguido por um tsunami que devastou o Japão há menos de um mês e deixou, até agora, mais de 27.000 mortos e desaparecidos. Mas a frase transportou Sogabe imediatamente de volta à madrugada de 17 de janeiro de 1995. Naquela noite, um abalo sísmico na cidade de Kobe, no sul do país, matou 6.437 pessoas.

Desde que recebeu a notícia, Sogabe mantém o televisor sintonizado 24 horas na emissora japonesa NHK, cuja programação é inteiramente concentrada nas consequências do desastre. As imagens são parte da rotina do sobrado alugado na Rua da Glória, no bairro da Liberdade, reduto da comunidade japonesa em São Paulo. Ali, Sogabe comanda o escritório de Fukushima – uma das 47 províncias do Japão, a terceira mais afetada pelo terremoto. Sua principal atribuição é garantir trabalho e moradia para os japoneses que se transferem para o Brasil e organizar intercâmbios entre jovens dos dois países. Quem contempla seu corpo franzino, os cabelos acinzentados e o sorriso que expõe só a parte inferior da dentadura não imagina que alguém tão frágil sobreviveu a um dos mais terríveis terremotos da história do Japão.

Como desta vez, também foi por volta das 5h que o tremor em Kobe tirou Sogabe da cama. Um aparelho de televisão quase atingiu-lhe a cabeça. O cofre de 600 quilos que ficava no canto do apartamento caiu no meio da sala. “Minha primeira reação foi sair correndo”, conta. O barulho era ensurdecedor. Tudo durou segundos. Quando saiu para a rua, Sogabe viu árvores caídas, postes tombados sobre os telhados das casas e paredes lambidas pelo fogo. Ao lado de um amigo, começou a perambular pela cidade.

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Um prédio partido ao meio permanecia surpreendentemente em pé, com a parte superior equilibrada sobre a inferior, como uma enorme sanfona na vertical. Uma das pontes estava completamente retorcida, em espiral. As pessoas não tinham onde dormir, comer ou tomar banho. Sogabe não lembra o valor exato, mas desembolsou muito dinheiro para lavar o corpo numa sauna. Faltava pão e os supermercados funcionavam precariamente.

“Eu pensei: de novo?”, diz Sogabe. “Comecei a lembrar de Kobe. Fiquei bobo”. Foi na sala de carpete marrom, com as paredes forradas de livros em japonês, que Sogabe começou a recuperar o equilíbrio. Telefonou para os escritórios das outras províncias e começou a arrecadar comida e dinheiro para os compatriotas do outro lado do Pacífico.

Sogabe nasceu em Nagai, cidade de 20 mil habitantes na província de Yamagata, ao norte de Tóquio. Estava lá em agosto de 1945, quando o presidente dos Estados Unidos Harry Truman ordenou o lançamento de bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Distante mais de 2 mil quilômetros do epicentro das explosões, não sofreu os efeitos da radiação. Mas recorda o sofrimento da família. “Lembro da minha mãe chorando quando o imperador anunciou pelo rádio que o Japão tinha perdido a guerra”. Foi a primeira vez que passou fome (a segunda foi em Kobe). Aos 11 anos, tinha de surrupiar caquis e batatas das plantações de vizinhos e, sempre que cruzava com um comboio do Exército americano que patrulhava o local, reunia os amigos para puxarem a farda dos soldados e pedir esmolas.

Em 6 de setembro de 1953, um navio saiu do Japão para desembarcar no Brasil 600 japoneses com 18 a 20 anos, todos solteiros. Sogabe era um deles. Como a Segunda Guerra reduzira a praticamente zero a chance de conseguir emprego no Japão, o governo brasileiro autorizou a entrada dos imigrantes. Getúlio Vargas impôs uma única restrição: teriam de trabalhar na lavoura por um período mínimo de quatro anos. Em 1995, Sogabe voltou ao Japão. Desta vez a bordo de um avião, chegou ao país para negociar com empreiteiras a contratação de brasileiros descendentes de japoneses – caminho oposto ao que fizera na década de 50. Arranjou um apartamento no primeiro andar de um prédio em Kobe. E foi ali que conheceu cada detalhe do horror que, hoje, assola mais uma vez a terra natal.

Sendai, 11 de março de 2011

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