24 de novembro de 2020

Hiroshima e Nagasaki 75 anos depois: ataques transformaram Japão e o mundo

Trágico capítulo da história da humanidade levou a mudanças na sociedade japonesa e deixou cicatrizes permanentes nos sobreviventes
The National ArchivesHandoutReuters
Hiroshima Peace Memorial Museum (top) and Shigeo HayashiHiroshima Peace Memorial Museum (bottom)Reuters
Hiroshima Peace Memorial Museum (top) and Shigeo HayashiHiroshima Peace Memorial Museum (bottom)Reuters
U.S. National Archives.
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Visual History of Nostalgic StationKokusho-kankoukai.
U.S. National Archives.
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Mitsugi KishidaTeppei KishidaHiroshima Peace Memorial MuseumReuters
U.S. Air ForceHandoutReuters
Department of EnergyLawrence Berkeley National LaboratoryReuters
Shigeo HayashiHiroshima Peace Memorial MuseumReuters
Department of EnergyLawrence Berkeley National LaboratoryReuters
Mitsugi KishidaTeppei KishidaHiroshima Peace Memorial MuseumReuters
Department of DefenseDepartment of the Air ForceReuters

É difícil esquecer o impacto avassalador de bombas com poder destrutivo de dezenas de milhares de toneladas de explosivos. Para os sobreviventes dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, as imagens de agosto de 1945 estarão para sempre guardadas como um momento de horror e medo.

Os japoneses relembram nesta quinta-feira, 6, 75 anos desde que os Estados Unidos lançaram o primeiro ataque com bomba atômica do mundo na cidade de Hiroshima, seguido pelo segundo e último, três dias depois, em Nagasaki, vaporizando vidas, prédios e a disposição do Japão para a guerra. Mais de 200.000 pessoas morreram.

Imagens de arquivo mostram a Hiroshima pré-bomba como uma cidade agitada e próspera, com homens embarcando em bondes, mulheres elegantemente vestidas com quimonos e crianças com uniformes escolares caminhando sob flores de cerejeira que pairavam nas ruas comerciais. Após a explosão, destroços e metais retorcidos se estendiam quase sem fim ao horizonte. Postes de eletricidade e árvores nuas acompanhavam um punhado de prédios sem janelas que pareciam ter resistido ao impossível.

Em anos anteriores, o país organizou memoriais anuais e renovou promessas por um mundo livre de armas nucleares na data. As cerimônias deste ano serão menores por causa da pandemia de Covid-19, com menos assentos e mensagens por vídeo de dignatários. Ainda assim, a data não será esquecida.

Cicatrizes aparentes

Localizada a 150 metros do epicentro da explosão atômica de 6 de agosto de 1945, a Cúpula Genbaku é um duro lembrete da devastação sofrida pelas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. O antigo prédio da prefeitura, uma das poucas construções próximas ao epicentro da bomba que restou em pé, hoje serve como uma espécie de metáfora para os sobreviventes.

A cidade se reergueu ao redor do prédio inaugurado em 1915 e hoje Memorial da Paz de Hiroshima, em homenagem às mais de 140.000 pessoas mortas no ataque dos Estados Unidos há 75 anos contra a cidade, mas com cicatrizes aparentes. Nos anos seguintes, mesmo no calor, era comum ver pessoas com chapéus e casacos para cobrir ferimentos e queimaduras.

A tragédia também gerou um movimento contra a proliferação das armas nucleares. Como explica o químico Masakatsu Yamazaki, do Instituto de Tecnologia de Tóquio, foi apenas após o fim da ocupação Aliada que os japoneses se mobilizaram contra os armamentos nucleares. Durante a ocupação, encerrada em 1952, a máquina de censura limitava o conhecimento da população sobre a ameaça nuclear.

O primeiro episódio de protestos se deu após um teste nuclear americano no início de 1954 no Atol de Bikini, nas ilhas Marshall, a 4.000 quilômetros da costa japonesa. A tripulação de um navio japonês foi atingida pelas partículas radioativas, mas, mesmo assim, os Estados Unidos continuaram os testes, contaminando os peixes da região. Até meados de 1955, já havia uma petição com as assinaturas de mais de um terço de toda a população japonesa. No mesmo ano, o governo japonês aprovou uma lei que bania o uso militar da energia nuclear.

O medo de uma guerra nuclear, porém, já pairava sobre grande parte da população antes mesmo das bombas de Hiroshima e Nagasaki, e agosto de 1945 apenas tornou os temores reais. “O medo que já existia cresceu e se estendeu por todo o período da Guerra Fria”, diz James Hershberg, professor de História da Universidade George Washington.

“A opinião pública sobre a proliferação de armas nucleares é pendular. Há períodos em que há muita preocupação, mas depois o tema deixa de interessar”, diz Jeffrey Knopf, professor da Middlebury College, nos Estados Unidos. “Sempre que progredimos no controle, algumas pessoas parecem acreditar que o problema nuclear foi resolvido. Mas, enquanto existirem armas nucleares, o perigo ainda estará lá”.

Vista de Hiroshima após o lançamento da bomba atômica. Estima-se que cerca de 90% da cidade tenha sido destruída com as explosões e incêndios Foto: B. HoffmanGetty ImagesVEJA
O avião “Enola Gay”, modelo B-29, lançou a bomba atômica sobre Hiroshima. A aeronave recebeu este nome em homenagem à mãe do piloto Paul Tibbets, Enola Gay Tibbets Foto: KeystoneGetty ImagesVEJA
Apelidada de “Little Boy”, a bomba lançada sobre Hiroshima tinha cerca de três metros de comprimento e pesava quatro toneladas. Contendo 60 kg de urânio-235, sua potência equivaleu a quase 15.000 toneladas de explosivos TNT. Na foto, uma cópia da bomba lançada no Japão Foto: MPIGetty ImagesVEJA
Em Hiroshima, vista aérea do cogumelo atômico, nome dado à nuvem de fumaça que se forma após a explosão da bomba atômica. Depois do ataque, a cidade ficou sem luz devido à espessa camada de fumaça que se formou, impedindo os raios de sol de passarem Foto: Hulton ArchiveGettyVEJA
Hiroshima em foto de 1945. A explosão atingiu um raio de 2000 metros do marco zero da bomba, destruindo completamente uma área de oito quilômetros quadrados Foto: Hulton ArchiveGettyVEJA
Alguns poucos edifícios, construídos com concreto armado para resistir a terremotos, foram capazes de resistir em Hiroshima Foto: Getty ImagesVEJA
Foto de Hiroshima três semanas após a bomba. Além das explosões, incêndios eclodiram simultaneamente em toda a cidade, queimando o restante das casas e sobreviventes que haviam resistido aos primeiros minutos do ataque Foto: George SilkGetty ImagesVEJA
Algumas horas após o ataque, o governo japonês não tinha certeza do que havia ocorrido. A confirmação chegou apenas 16 horas depois, quando os Estados Unidos anunciaram oficialmente o bombardeio. Na foto, uma cena da destruição em Hiroshima Foto: B. HoffmanGetty ImagesVEJA
Estima-se que cerca de 70.000 pessoas tenham morrido instantaneamente com a explosão da bomba em Hiroshima. O calor e a radiação carbonizaram todos os que estavam no raio de dois quilômetros da bomba. Na foto, pessoas caminham pelas ruas algumas semanas após a explosão Foto: B. HoffmanGetty ImagesVEJA
Uma “chuva negra”, composto de detritos de radiação, atingiu a cidade após a explosão da bomba. Na imagem, uma cena da destruição de Hiroshima Foto: Hulton ArchiveGettyVEJA
Muitos historiadores acreditam que o bombardeamento do Japão trouxe o fim da Segunda Guerra Mundial. A rendição do país foi assinada menos de um mês depois, em 2 de setembro de 1945 Foto: J. R. EyermanGetty ImagesVEJA
Nas ruas de Hiroshima, as crianças muniram-se de máscaras para enfrentar o cheiro dos corpos que estavam sob os escombros Foto: KeystoneGetty ImagesVEJA
Um mês após a explosão da bomba em Hiroshima, uma vítima é atendida em hospital improvisado, montado em um banco local. Até o final de 1945, cerca de 140.000 pessoas morreram em decorrência dos efeitos da radiação Foto: Wayne MillerGetty ImagesVEJA
Homem mostra queimaduras sofridas na explosão da bomba atômica em Hiroshima. Este foi o ferimento mais comum dos sobreviventes, juntamente com as doenças causadas pela radiação, como a leucemia e outros tipos de câncer Foto: John DominisGetty ImagesVEJA
Em retrato de dezembro de 1945, mãe segura seu filho em frente à cidade de Hiroshima destruída. Eles são <em>hibakusha</em>, nome dado aos sobreviventes da bomba. Em contagem feita em 2008, havia 243.692 <em>hibakusha</em> reconhecidos oficialmente Foto: A. EisenstedtGetty ImagesVEJA
Destroços de edifício de um cinema em Hiroshima, depois da bomba em 1945. Construída pelo arquiteto checo Jan Letzel, a estrutura da cúpula manteve-se, apesar de estar localizada a apenas 150 metros do epicentro da explosão Foto: PopperfotoVEJA
A cúpula remanescente da explosão em Hiroshima tornou-se um marco da cidade: chama-se Cúpula Genbaku, ou Cúpula da Bomba Atômica. Para homenagear as vítimas, foi construído ao seu redor o Parque Memorial da Paz, idealizado pelo arquiteto japonês Kenzo Tange. O projeto tornou-se patrimônio mundial da UNESCO em 1996 Foto: Junko KimuraGetty ImagesVEJA
No rio Motoyasu, em frente ao Parque Memorial da Paz em Hiroshima, velas em lâmpadas de papel foram acesas em memória das vítimas da bomba atômica Foto: Junko KimuraGetty ImagesVEJA
Homem visita o Museu do Memorial da Paz em Hiroshima, no Japão. A cidade tornou-se referência do movimento pacifista japonês, que lutou pela abolição total dos armamentos nucleares a nível mundial Foto: Junko KimuraGetty ImagesVEJA
Leia em VEJA: Levantamento exclusivo revela os campeões da destruição. Mais: as mudanças do cotidiano na vida pós-pandemiaVEJA/VEJA

Um evento, várias visões

Além das mudanças comportamentais, a bomba também criou uma divisão profunda no imaginário popular e cultural entre americanos e japoneses. Enquanto as histórias modernas americanas mostram super-heróis nascidos da radiação, como o Hulk e os integrantes do Quarteto Fantástico, a mídia japonesa criou monstros, como o gigante e quase indestrutível Godzilla. 

O uso da primeira arma nuclear por qualquer país também divide americanos e japoneses. Em uma pesquisa de opinião conduzida pela Gallup em 1945, logo após os bombardeios, 85% dos americanos aprovaram o uso da nova arma atômica contra as cidades japonesas. A versão mais recente da pesquisa, conduzida em 2015 pelo Pew Research Center, indicou que o número agora é de 56%. O número no entanto, é discrepante entre americanos com mais de 75 anos: sete em cada dez dizem que os ataques foram justificáveis. 

Os bombardeios precedem o fim da Segunda Guerra Mundial. A rendição da Alemanha, em 8 de maio, marcou o fim do confronto na Europa, mas combates seguiram na Ásia e no Pacífico. Em julho, ao final da conferência de Potsdam, os Aliados, liderados por EUA, Reino Unido, França e União Soviética, exigem a rendição do Japão, que ignora o ultimato. 

Em 15 de agosto, seis dias depois do ataque a Nagasaki, o Japão se rende. No entanto, começa uma busca de países por arsenais nucleares. Em 1949 a União Soviética se tornou o segundo Estado com armas atômicas, após detonar sua primeira bomba nuclear no Cazaquistão. 

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“Todos os presidentes americanos, sem exceção, defenderam a ideia de que o ataque foi justificado e necessário. Muitos cidadãos também acreditam nisso”, diz James Hershberg. “Enquanto isso, o Japão aceitou seu papel de vítima para esconder alguns dos crimes cometidos durante a guerra”

São duas versões muito debatidas. Até hoje historiadores discutem se os ataques, no fim das contas, salvaram vidas ao cessarem o conflito, evitando assim uma possível invasão terrestre. Segundo Hershberg, o consenso internacional é de que os ataques foram motivados por interesses políticos e militares dos americanos, que tinham como grande objetivo derrotar o Japão, ao mesmo tempo em que também desejavam colocar um fim à guerra. Para Washington, a possibilidade de mostrar seu poderio bélico e intimidar a União Soviética também foi um fator determinante. 

“As bombas revolucionaram a forma de pensar a guerra, o combate militar e a ciência”, diz o professor da Universidade George Washington. “Inaugurou-se uma nova era das relações intergovernamentais e diplomáticas”.

“Os líderes mundiais entenderam que eles precisam ser cautelosos para não provocar o tipo de conflito bélico que poderia levar à escalada do uso nuclear”, diz Jeffrey Knopf. “Há muitas razões complexas pelas quais não realizamos outra guerra mundial desde 1945, mas o medo da guerra nuclear é uma delas”.

‘Inferno na Terra’

Para os sobreviventes, no entanto, esses cálculos não significam nada. Muitos lutaram por décadas contra traumas físicos e psicológicos, fora o estigma às vezes atrelado a ser um “hibakusha”. Frequentemente eles eram marginalizados, em especial para casamentos, por conta de preconceito envolvendo exposição à radiação.

Hoje, os relatos dos “hibakusha”, palavra em japonês para as pessoas afetadas pela bomba, vão pouco a pouco diminuindo. A média de idade de um sobrevivente agora é pouco mais de 83 anos, segundo o Ministério da Saúde do Japão, e a última geração deles tenta garantir que a história não se repita. A cidade se tornou um ponto de referência em estudos e pesquisas para desnuclearização. O Museu do Memorial da Paz de Hiroshima conta com um arquivo em vídeo das histórias de mais de 1.500 sobreviventes; alguns deles estão até mesmo disponíveis para conferências online. 

Terumi Tanaka, de 88 anos, é um dos “hibakusha”. Morador de Nagasaki, bombardeada três dias depois depois de Hiroshima, Tanaka teve um destino diferente de seu avô, uma das 27.000 pessoas que morreram instantaneamente. Outras 70.000 morreram até o final do mesmo ano por doenças e ferimentos relacionados à bomba.

Os ataques soltaram uma radiação que se mostrou mortal tanto logo após o bombardeio quanto a longo prazo. Doenças e sintomas associados à radiação foram relatados por muitos que sobreviveram ao impacto inicial. Os sintomas da síndrome aguda de radiação incluem vômitos, dores de cabeça, náuseas, diarréia, hemorragia e perda de cabelo. Para grande parte dos afetados, a doença é fatal dentro de algumas semanas ou meses.

Estudante japones observa a fotografia de um soldado com manchas de sangramento interno devido ao ataque que atingiu Hiroshima, no Museu Memorial da Paz de Hiroshima, na véspera do aniversário de 70 anos do ataque responsável pela morte de 140 mil pessoas Toru HanaiReuters
Pássaro sobrevoa o Domo da Bomba Atômica, em Hiroshima. No dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos soltaram a bomba atômica na cidade, matando cerca de 140 mil dos 350 mil residentes de Hiroshima, no primeiro ataque nuclear da história. Três dias depois, uma segunda bomba foi jogada em Nagasaki Issei KatoReuters
Budistas marcham com lamparinas em luto pelas vítimas próximo ao Domo da Bomba Atômica, ao lado do Parque Memorial da Paz, em Hiroshima. A cidade se prepara para o aniversário de 70 anos do primeiro ataque nuclear do mundo, que devastou a cidade no dia 6 de agosto Kazuhiro NogiAFP
Pessoas deitam no chão fingindo de mortos em frente ao Domo da Bomba Atômica, em ato em lembrança às vítimas da bomba que atingiu Hiroshima em 1945, matando cerca de 140 mil pessoas Thomas PeterReuters
Homem olha o Domo da Bomba Atômica ao anoitecer em Hiroshima, Japão. O Domo conhecido no japão como "Genbaku Dome", é a única estrutura que continuou em pé neste distrito da cidade, e foi preservado como uma memorial da paz Thomas PeterReuters
Foto tirada em agosto de 2015 do "Genbaku Dome", ou Domo da Bomba Atômica, é visto da ponte Aioi, em Hiroshima, Japão. O domo foi a única estrutura deste distrito da cidade a continuar em pé após o ataque Issei KatoReuters
Foto tirada por Toshio Kawamoto e distribuida por seu neto, Yoshio Kawamoto, mostra o Palácio das Indústrias de Hiroshima, como era conhecido o atual Domo da Bomba Atômica, após a queda da bomba. O prédio foi o único do distrito a resistir à explosão e foi preservado como memorial Toshio KawamotoYoshio KawamotoHandoutReuters
Crianças andam de bicicleta na ponte Aioi, com o Domo da Bomba Atômica ao fundo, em Hiroshima, Japão. No dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos soltaram a bomba atômica na cidade, matando cerca de 140 mil dos 350 mil residentes de Hiroshima, no primeiro ataque nuclear da história. Três dias depois, uma segunda bomba foi jogada em Nagasaki Issei KatoReuters
Moradores passam em frente ao Palácio das Indústrias de Hiroshima, hoje conhecido como Domo da Bomba Atômica, na ponte Aioi, após o ataque contra Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945 Shigeo HayashiHiroshima Peace Memorial MuseumReuters
Linha ferroviária vista da ponte Aioi, em Hiroshima. A cidade se prepara para o aniversário de 70 anos do primeiro ataque nuclear do mundo, que devastou o local no dia 6 de agosto Issei KatoReuters
Moradores caminham em frente a prédios destruidos próximo à ponte Aioi, em Hiroshima, após o ataque nuclear à cidade no dia 6 de Agosto de 1945 Shigeo HayashiHiroshima Peace Memorial MuseumReuters
Homem caminha pela ponte Yorozuyo, na véspera do aniversário de 70 anos do ataque nuclear à cidade de Hiroshima, Japão. No dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos soltaram a bomba atômica na cidade, matando cerca de 140 mil dos 350 mil residentes de Hiroshima, no primeiro ataque nuclear da história. Três dias depois, uma segunda bomba foi jogada em Nagasaki Issei KatoReuters
A sombra de trilhos é vista na superfície da estrada na ponte Yorozuyo, em Hiroshima, devido ao calor da bomba atômica. Este local fica a 860 metros do centro da explosão, a superfície desprotegida do asfalto foi queimada enquanto áreas protegidas pelos trilhos ficaram com um tom mais claro U.S. ArmyHiroshima Peace Memorial MuseumReuters
A catedral Urakami, que havia sido destruída pela bomba e foi reconstruída em 1959, é vista em Nagasaki, sudoeste do Japão. A bomba que atingiu Nagasaki foi lançada três dias após o ataque a Hiroshima Issei KatoReuters
A Catedral Urakami parcialmente destruída pouco após o ataque a Nagasaki, no dia 9 de Agosto de 1945, no Japão Shigeo HayashiNagasaki Atomic Bomb MuseumReuters
A Escola Primária Shiroyama é vista em Nagasaki, sudoeste do Japão (topo, à direita). A escola foi construída no local da antiga Escola Nacional Shiroyama, que foi destruída após o ataque a Nagasaki no dia 9 de agosto de 1945 Issei KatoReuters
A Escola Nacional Shiroyama (topo, centro), destruída pelo ataque nuclear que atingiu Nagasaki no dia 9 de agosto de 1945 Shigeo HayashiNagasaki Atomic Bomb MuseumReuters
Estacionamento de Hospital Universitário de Nagasaki, construído no local da Faculdade Médica de Nagasaki, que foi destruído pela bomba atômica que atingiu a cidade no dia 9 de agosto de 1945 Issei KatoReuters
Imagem da Faculdade Médica de Nagasaki após a explosão da bomba atômica que atingiu a cidade, no sudoeste do Japão, no dia 9 de agosto de 1945 Torahiko OgawaNagasaki Atomic Bomb MuseumReuters
O avião "Enola Gay" executou o bombardeio à cidade de Hiroshima, derrubando a bomba atômica no primeiro ataque nuclear do mundo. A cidade se prepara para o aniversário de 70 anos da explosão da bomba nuclear que devastou a cidade no dia 6 de agosto de 1945 KeystoneGetty Images
Imagem mostra o impacto da bomba na cidade de Hiroshima. O epicentro da explosão está marcado por um pequeno círculo branco, enquanto a área de devastação pode ser vista pela superfície negra que marca a cidade. O ataque a Hiroshima foi seguido três dias depois por um ataque a Nagasaki Photo12UIGGetty Images

Os sobreviventes dos ataques também sofreram com efeitos no longo prazo, incluindo riscos elevados de câncer de tireoide e leucemia. Ambas as cidades atacadas registraram taxas mais altas de incidência de câncer após o ocorrido. Segundo estudo da Fundação de Pesquisa de Efeitos de Radiação do Japão-EUA, que analisou 50 mil vítimas de Hiroshima e Nagasaki, aproximadamente 100 morreram de leucemia e 850 sofreram de câncer induzido por radiação.

Há 50 anos, Tanaka defende o desarmamento nuclear e, há mais de 20, é líder de um grupo de vítimas. Estima-se que restem apenas 136.700 delas, muitos ainda eram bebês ou estavam na barriga de suas mães no momento das atrocidades.

“Após todos os sobreviventes da bomba atômica irem embora, tenho medo de se as pessoas realmente irão conseguir entender o que passamos”, diz. “Montamos um grupo chamado No More Hibakusha Project, que trabalha para preservar registros como arquivos, incluindo o que escrevemos para que (a próxima geração) possa usá-los em suas campanhas”.

Em um relato em primeira pessoa publicado em VEJA em 2016, a sobrevivente Chifusa Wakigawa, que trabalhava em uma fábrica, afirma que, sempre que o dia 9 de agosto se aproxima, “a traumatizante lembrança daquela manhã chega a me deixar de cama”.

“Tudo ocorreu tão rápido que pensei, por instantes, ter morrido. Quando o barulho parou, apalpei meu corpo: não tinha ferimentos. Não conseguia ver nada; acreditava estar cega. Contudo, aos poucos, a visão voltou e pude observar o que se passara. À minha volta, só havia escombros e muitos, muitos mortos. Saí correndo para casa”, conta. 

No caminho, segundo ela, havia cadáveres carbonizados, vítimas ensanguentadas que pediam socorro e pessoas queimadas que tentavam saciar a sede em um rio. “Nunca se apagou da minha memória a cena de uma mãe segurando firme um bebê já sem cabeça. Ela implorava por água como se ainda não tivesse caído em si. Eu vi – não há outro modo de descrever – o Inferno na Terra”. 

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