28 de novembro de 2020

Quando acontece uma tragédia, o governo esquece a anterior e espera a próxima

Se antes esquecia a cada 15 anos o que acontecera nos últimos 15 anos, o Brasil passou a esquecer a cada mês o que aconteceu nos 30 dias anteriores. Tão curta quanto a memória da nação, a agenda do governo não tem espaço para mais que uma tragédia por vez. Quando acontece uma nova, a […]

Se antes esquecia a cada 15 anos o que acontecera nos últimos 15 anos, o Brasil passou a esquecer a cada mês o que aconteceu nos 30 dias anteriores. Tão curta quanto a memória da nação, a agenda do governo não tem espaço para mais que uma tragédia por vez. Quando acontece uma nova, a mais recente fica irremediavelmente antiga e as promessas são substituídas por outras, que serão também esquecidas assim que vier outro momento dramático.

A catástrofe na Região Serrana, que já era uma lembrança remota, parece coisa dos tempos do Império depois da chacina na escola em Realengo. De olho nos holofotes, câmeras e gravadores, a presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral têm outros mortos a prantear, outras famílias a consolar e, sobretudo, outras promessas a fazer. Que também não serão cumpridas: alguma tragédia nova haverá de socorrê-los.

O dever do país que presta é impedir que se esqueça o que ocorreu e o que foi prometido ─ o esquecimento é uma segunda morte. Há dois dias, a coluna confrontou a inépcia criminosa dos governantes brasileiros com a objetividade exemplar exibida pelo Japão, surpreendido por um desastre natural ainda mais devastador. As fotos abaixo reproduzidas justificam a retomada do tema: as imagens escancaram o abismo que separa gente séria dos fanfarrões.

Um mês depois dos deslizamentos e inundações na Região Serrana, milhares de sobreviventes continuavam (e continuam) acampados em abrigos improvisados em prédios, galpões e espaços vazios pertencentes ao poder público. Os sem-teto recolhidos a escolas, como os que aparecem na foto, já mudaram de endereço. Não foram transferidos para as casas prometidas por Dilma ─  nenhuma ficou pronta. Como as aulas recomeçaram, estão em outro acampamento.

As vítimas do terremoto e do tsunami que castigaram o Japão em 11 de março foram instaladas em alojamentos construídos pelo governo (foto à direita). Menos de um mês depois da tragédia, retomaram a vida em casas pré-fabricadas (à esquerda).

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As imagens publicadas no blog do Ricardo Setti mostraram como ficou no apavorante 11 de março a autoestrada Tohoku , na província de Ibaraki.

As obras de reconstrução da rodovia, que liga Ibaraki a Tóquio, começaram em 17 de março. Seis dias mais tarde, a autoestrada foi liberada para o tráfego de veículos.

Os deslizamentos provocados pelas tempestades na Região Serrana transformaram a RJ-130, que liga Nova Friburgo a Teresópolis, numa estrada de terra de grotão. A foto comprova que, passado um mês, não havia sinais de que ali existira uma rodovia pavimentada.

O massacre de Realengo virou a página ensanguentada. Dilma está concentrada em outro minuto de silêncio, o governador Sérgio Cabral exige a reprise do referendo sobre o desarmamento, o prefeito Eduardo Paes promete um policial para cada escola. Até que venha mais uma tragédia. Então, também as crianças assassinadas serão engolidas pelo baú de velharias onde os gigolôs do sofrimento alheio acabam de enfiar mais de mil mortos e milhares de flagelados.

O Japão não é aqui.

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